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Relações Objetais - Instintos e Pulsões

Dr. Carlos Eduardo Rios Pereira é Medico Psiquiatra pela USP, ex-diretor clínico do Instituto de Psiquiatria de São José dos Campos, ex-Professor de Psicopatologia da UNIVAP, ex-membro da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Psicanalista Clínico e Didata

Relações Objetais

Instintos e Pulsões

Trabalho de conclusão do Curso de Psicanalista Didata.

Colégio Brasileiro de Psicanálise

Associação Psicanalítica do Vale do Paraíba.

Dr. Carlos Eduardo Rios Pereira é Medico Psiquiatra pela USP, ex-diretor clínico do Instituto de Psiquiatria de São José dos Campos, ex-Professor de Psicopatologia da UNIVAP, ex-membro da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Psicanalista Clínico e Didata formado pela ABP, atualmente é o Presidente da APVP.

Para se tratar do tema psicanalítico das relações objetais é indispensável tratar-se da teoria pulsional na obra de Freud.

Em se tratando do termo alemão “Trieb” há os que traduzem por instinto, baseando-se na tradução inglesa que emprega “instinct” e os defensores da alternativa pulsão, baseada na tradução francesa “pulsión”.

O termo pulsão permite uma conotação de pulsar, de continuidade, alternância de cheio e vazio e também de movimento de ação.

Os significados de Trieb em dicionários alemães estão próximos, identificando um núcleo básico de sentido: algo que impulsiona, coloca em movimento, que aguilhoa, não deixa parar, empurrar; força interna-que impele para a ação,ímpeto perene, Instinto, força inata de origem biológica, dirigida a certas finalidades: a criança tem um instinto de mamar. (1)

Na frase acima: A criança tem um instinto de mamar, tem-se que o seio que produz o leite é o objeto da pulsão e é deste objeto que trata a psicanálise.

O significado de pulsão abrange ainda o sentido de ânsia, impulso que toma o sujeito. Na literatura e na poesia aparece em conexão com o amor e a sensualidade.

Também pode-se notar no emprego corrente a concepção de pulsão como algo poderoso, seu caráter indefinível e oscilante entre o prazer e o desprazer, abrange todos os seres vivos, passa pela espécie e atinge determinados indivíduos.

Em Freud trata-se de força biológica dos seres vivos: pulsão de mamar, de respirar, de reproduzir-se, processo energético econômico, onde esta em jogo o acúmulo de energia, a circulação dela e a descarga.

Para o indivíduo a pulsão aparecerá como fenômeno psíquico representacional (idéia, medo,vontade, sensação, dor, tendência) e irá impulsioná-lo para certas ações.

A pulsão designa um impulso que simplesmente existe tal qual o impulso de respirar, ele é a base do próprio querer, base comum que gera a necessidade,a ânsia e o desejo.

Quanto ao seu colorido afetivo, aquilo que afeta quando brota no sujeito é inicialmente agradável, como o apetite para comer. Quando não é possível realizá-la, ela se acumula e se transforma de incentivo em imperativo degradável em desprazeiroso e até em dor, como a fome e a sede.

Assim no emprego em alemão há um continuum entre o prazer e o desprazer, entre um comichão e um imperativo.

Em geral a pulsão abarca todo o arco que se inicia em sua origem como força impelente geral dos seres vivos e desemboca como impulso ou tendência de um determinado indivíduo de uma determinada espécie.

Em toda sua vida o ser humano há de se haver com o instinto ou as pulsões, na sua constante necessidade de descarga e alívio, sempre na busca de prazer, que terá que ser frustrado.

Assim o homem não, poderá por exemplo, comer o que quiser, nem a hora que quiser, não poderá relacionar-se sexualmente quando quiser, nem com quem quiser.

Os instintos e as pulsões são os constituintes do Id que por isto é imutável. como existe, existirá sempre.

Ai está instalada a angústia determinada pela necessidade de satisfazer os instintos,(pulsões) e de colocá-los sob o domínio da lei, da razão.

Desta forma Freud anuncia como sendo dois os princípios do funcionamento mental: o principio do prazer e o principio da realidade, que estarão sempre se confrontando, na busca de expressão. (2)

O termo “Trieb” quando usado no sentido de princípio biológico da espécie e carregado de indeterminação que evoca idéia de força, de atemporalidade de arcaísmo, é algo genérico, impessoal, maior que o sujeito isolado.

A raiz do conflito psíquico seria o conflito pulsional, irredutível que é o responsável pela angústia existente perenemente em todo humano.

O sistema pulsional para ser impelente, deverá ser gerador de tensão ou,na linguagem afetiva de conflito, portanto o dualismo conflitivo tinha que ser encontrado na própria base pulsional.

Freud chega então a dois instintos básicos irredutíveis que atuam no psiquismo ora amalgamados, ora em oposição, mas ativos permanentemente: o instinto de morte e o instinto de vida.(3)

Freud na conceituação das pulsões(instintos), equipara o instinto de vida ao instinto sexual e o instinto de morte às pulsões agressivas.

Os instintos(pulsões) atuando como força natural biológica, em estado bruto atuam no bebê de forma não organizada(desorganizada para alguns autores) e mesmo para sua descarga irão necessitar de outro para que seja organizada.

Assim este outro é o objeto da pulsão, representado em primeira instância pela mãe ou sua substituta. É de um psiquismo que se situa entre a biologia e a cultura que Freud irá sempre tratar.

A mãe inicialmente e depois o pai como figuras atuantes na organização mental do bebê irão determinar o que pode, quando e como pode, o que não pode, formando elementos que em seu conjunto darão formato ao Super-Ego do indivíduo.

A outra instância do psiquismo, o Ego dará forma ao indivíduo na constante tarefa de dar formato às relações entre o Id e o Super-Ego, o mundo interno e o externo.

Se abordarmos a vida psíquica do ponto de vista biológico, a pulsão deve ser entendida como conceito limite entre o psíquico e o somático, como representante psíquico dos estímulos que provem do interior do corpo(dos órgãos, das víceras) e alcançam a psique, como medida de exigência de trabalho imposta ao psiquismo em conseqüência de sua relação com o corpo. (4)

O conceito acima é de extrema importância clínica, uma vez que decorrerá de sua compreensão o entendimento da psicogênese das doenças psicossomáticas como se verá no decorrer deste trabalho.

A meta de uma pulsão é sempre a satisfação, que só pode ser obtida quando o estado ou quantidade de estímulo presente na fonte pulsional é suspensa(descarregada).

A experiência clinica demonstra a existência de um gênero de pulsões denominadas inibidas quanto a meta. È o que ocorre por exemplo em homens que no decurso do ato sexual não chegam ao orgasmo, o mesmo ocorrendo com as mulheres.

O fato clínico acima exposto é denominado anorgasmia, no entretanto cabe supor que mesmo nestes casos ocorra ao menos uma satisfação parcial, se não orgânica pelo menos psíquica, emocional. Neste caso a pulsão está inibida ou desviada do seu percurso.

O fato causal, agente da inibição é esquecido pelo individuo, dissociado do afeto, permanecendo inconsciente. Citaremos como exemplo um pequeno trecho da análise de uma paciente.

L.S cerca de 45 anos de idade, entre outras queixas citou intenso medo nas relações sexuais com o marido, embora este fosse um homem compreensivo e dedicado, amistoso e tranqüilo.

No decorrer da análise fico sabendo que o pai da paciente era um homem violento, que espancava a esposa, mãe da paciente e que depois mantinha com ela relações sexuais.

Sempre preocupada com a mãe, a noite ouvindo barulho no quarto dos pais, L.S foi até o quarto deles surpreendendo o pai sobre a mãe, aterrorizada imaginou que ele a estivesse matando, havia esquecido o fato que só emergiu em sua mente consciente após dois anos de análise.

 As pulsões e seus objetos

Objetos de afeto

 O objeto da pulsão é aquilo em que ou por meio de que, a pulsão alcança sua meta. Ele é o elemento mais variável da pulsão e não esta originariamente ligado a ela, sendo lhe apenas acrescentado por propiciar satisfação.

O objeto poderá ser uma parte do próprio corpo, podendo ser substituída por intermináveis outros objetos, a este movimento chamamos deslocamento da pulsão.

As pulsões e seus objetos terão extrema importância na constituição, na formação do Ego e da identidade do individuo, inclusive de sua identidade sexual. Quando há uma aderência particularmente estreita entre pulsão e o objeto haverá uma fixação. A fixação ocorre em períodos muito iniciais do desenvolvimento da pulsão, havendo então uma intensa oposição a separação entre pulsão e objeto,o que põe fim a mobilidade da pulsão.

Assim dizemos que um individuo masculino é fixado a imagem materna, quando nele a pulsão amorosa(sexual), não é deslocada para outras mulheres com força, com grande quantidade de energia. Isto pode ocorrer por força da sedução materna ou dependência do individuo ou ambas.

Podemos então depreender, que a mobilidade das pulsões é elemento de grande importância para a normalidade do psiquismo humano.

Por fonte das pulsões entendemos os processos somáticos que ocorrem nos órgãos ou outras partes do corpo, notadamente a pele e as mucosas, onde se originam estímulos, representados na vida psíquica pelas idéias, sensações, desejos, etc.

Os avanços da neurociência indicam a prevalência da natureza química destes processos. Assim as oscilações diuturnas da serotonina, nor-adrenalina, dopamina, endorfina, melatonina, etc, são os mensageiros das alterações dos órgãos e tecidos que permitirão ao cérebro a leitura das pulsões(fome,sede,desejo sexual, etc), dando ensejo as suas representações.

Seguindo as pulsões (instintos), como linha investigativa Freud passa a estudar a sexualidade na infância e sua evolução. Seguiremos com ele a evolução da pulsão sexual da criança e a sua conexão com as escolhas objetais.(5)

 Escolhas Objetais ou Objetos de escolha

Em: As manifestações da sexualidade infantil Freud aborda as questões do chuchar: O chuchar que aparece no lactente e pode continuar por algum tempo ou persistir pela vida toda, consiste na repetição rítmica de um contato de sucção efetuado com a boca(lábios), do qual está excluído qualquer propósito de comer(nutrição).

Uma pulsão sutil antecipa a possibilidade de pegar, tomar, agir, e alguma parte do corpo de outra pessoa como a mão o lóbulo da orelha pode ser tomado como objeto para a pulsão modificada.

O sugar com deleite(de leite), alia-se a uma absorção completa da atenção e leva ao adormecimento. As compreensão dos autores chamados pós freudianos podem nos trazer um entendimento mais detalhado dos escritos de Freud.

Assim Wilfred R.Bion, citado por David Zimerman, designa por objeto intermediário a parte do próprio corpo do bebê, tomado como objeto pela pulsão, em substituição ao seio materno o que verdadeiramente alimenta, nutre.

Assim o pequeno bebê ilude sua verdadeira necessidade do outro, da mãe, sentindo menos angustia, uma vez que não tem sobre ela, que representa o mundo externo, qualquer domínio real. O sucesso dessa estratégia dura só por algum tempo, logo a fome vencerá.

Ainda na ampliação e aprofundamento da compreensão das primeiras horas da vida extra uterina do bebê Donald Woods Winnicott no seu trabalho: Natureza Humana,(6) nos dirá que nesta primeira mamada o bebê está pronto “para criar” o mundo externo, o seio materno e a mãe tornam possível o bebê ter a ilusão que ele, o seio e aquilo que representa, que significa, foram criados pelo impulso originado na necessidade.

A mãe terá que ser portanto suficientemente boa para permitir que o bebê tenha essa ilusão(fantasia), havendo então a possibilidade que ele possa manter relacionamentos excitados com objetos ou pessoas naquilo que nós, observadores chamamos o mundo real, não criado pelo bebê.

Disto que foi dito podemos concluir que, qualquer transtorno na relação do bebê com o seio materno, ou seja na relação objetal, dificultará o desenvolvimento saudável do psiquismo do infante( infans=infante=aquele que não fala).

Como não fala, a representação das pulsões e dos afetos é estabelecida através das imagens e o pensamento assim constituído e chamado de processo primário do pensamento. Podemos conceber estes pensamentos como significantes e interligados em rede, com pontos nodais, pelo qual a pulsão circula, permanecendo fixada com maior ou menor intensidade em determinados nós.

Retornando a Freud em Três Ensaios sobre a sexualidade: o sugar com deleite não raro combina-se com a fricção de alguma parte sensível do corpo como os mamilos ou a genitália, muitas crianças passam assim do chuchar para a masturbação. Para Freud a investigação psicanalítica autoriza a ver no chuchar uma manifestação sexual e a estudar nele os traços de atividade sexual na infância.

Ainda hoje, passados cem anos do trabalho de Freud a que nos referimos, podemos avaliar o mal estar das mães ao lidar com a masturbação de crianças pequenas e seus esforços para reprimi-la. Ao processo assim qualificado chamamos de repressão e ao conteúdo de reprimido, que se torna inconsciente.

Saliente-se que na masturbação, a pulsão não esta dirigida para outra pessoa, satisfaz-se no próprio corpo, é auto erótica, termo introduzido na psicanálise por Havelock Ellis em 1910 (citado por Freud).

Dizemos com Freud que os lábios da criança comportam-se como uma zona erógena e que a principio, a satisfação da zona erógena deve ter-se associado com a necessidade do alimento. A atividade sexual apóia-se inicialmente numa das funções que servem a preservação de vida e só depois se torna independente delas.

O bebê não se serve de um objeto externo para sugar, mas de uma parte do seu próprio corpo, uma vez que isto a torna independente do mundo externo e assim se proporciona uma segunda zona erógena, se bem que de qualidade inferior, mais tarde irá procurar os lábios de outra pessoa, é assim que surge o beijo erótico, sexual.

Assim fica estabelecida nova dualidade pulsional: o auto e o hetero-erotismo ante o que o individuo irá sempre oscilar, ora investindo a libido pulsional em si próprio, ora em um objeto externo, (outra pessoa). Chama-se de libido a quantidade de energia psíquica investida em determinada situação, ou em determinada pessoa, provocando a catexização do objeto, a importância, o valor que se dá a ele.

A constituição de cada individuo determinará o seu grau de egoísmo ou altruísmo. A sua capacidade de lidar com o outro ser humano, reconhecendo que ele, o outro tem desejos, afetos, sentimentos e auto determinação. Como veremos adiante isso nem sempre termina assim. Parte da pulsão sempre será retida no próprio individuo.

Caso sobrevenha a repressão promovida pela mãe ou por outras pessoas do meio o individuo poderá sentir nojo da comida ou serão produzidos vômitos. Neste aspecto a teoria poderá auxiliar na compreensão dos distúrbios alimentares como, a anorexia nervosa, a compulsão alimentar periódica e a bulimia.

Com Winnicott pensamos que no bebê e na criança há uma elaboração imaginativa(pré verbal) de todas as funções corporais, que depois também será verbal.

Ao estudarmos a pulsão (excitação) instintiva é necessário levar em conta a função corporal mais envolvida. A parte excitada pode ser a boca, o ânus, o trato urinário uma ou mais partes do aparelho genital masculino ou feminino.

 Escolhas Objetais

 No lactente, o bebê pequeno, é obvia a prevalência do aparelho responsável pela ingestão, de modo que o erotismo oral, colorido por idéias de natureza oral é amplamente aceito como característico da primeira fase do desenvolvimento instintivo. Como já dissemos, a compreensão Freudiana a respeito do instinto baseia-se na existência do dualismo, ou seja o instinto de vida ou sexual(erótico) e o instinto de morte, agressivo(destrutivo).

Quem observar uma criança um pouco maior morder o outro pequenino com fúria ou morder a si mesmo, ha de distinguir o aspecto erótico ou sexual de sugar ou de chuchar, do aspecto sádico agressivo da mordida. Podemos então dizer que existe uma fase oral erótica e uma fase oral sádica, que alguns autores chamam de canibalística. Freud e Winnicott são concordes com essa concepção.

Na atividade clinica diária do psicanalista é difícil conceber a extensão das manifestações da oralidade.

Na observação das manifestações amorosas dos adultos estamos habituados a assistir nas ruas ou em filmes beijos apaixonados, onde a língua toma o lugar do seio materno e é sugada com deleite. Não param ai as manifestações amorosas ligadas a sexualidade oral, existem os beijos mordiscados, etc.

No outro extremo há alguns anos a população paulistana, horrorizada assistiu pela TV a prisão do Maníaco do Parque, que assassinou dezenas de mulheres jovens e em seu ritual macabro, mutilava o seio das suas vítimas comendo pedaços dele. Trata-se claramente de um ritual canibalístico feroz, a serviço da agressividade e do instinto de morte.

Na descrição acima vemos a coexistência(ao mesmo tempo), do amor e do ódio, do sexual e do agressivo destrutivo, da crueza da ambivalência.

Por um outro vértice estamos interessados nos processos orais auto-eróticos já abordados neste trabalho no chuchar, mas também nos processos orais auto destrutivos.

Falar no fumo e no alcoolismo é enfrentar fogo cerrado, já que rios de tinta foram gastos na busca de teorias explicativas para o tratamento de fumantes e alcoolistas , problema de reconhecida gravidade em âmbito mundial, responsáveis por um numero de doenças de grande morbilidade, como o câncer do pulmão, o enfisema pulmonar, o infarte do miocárdio, etc.

A observação de pequenos fatos, de detalhes, podem ser úteis na pratica psicanalítica. Algumas crianças no primeiro nível escolar manifestam suas ansiedades torturando seus lábios com lápis ou canetas, se ferindo ou destruindo aqueles objetos, a mordidas.

Aquelas crianças provavelmente demonstram oscilações de suas pulsões, quanto ao estudo, querem acabar com o lápis para não fazer a tarefa, querem comer o lápis para aprender tudo e poder brincar, mas podem descobrir também o prazer de aprender que lhe dará poder e condições de dominar o mundo externo.

Arriscando por impudência ou imprudência a observação do uso do charuto por Freud, uma das marcas registradas de sua imagem, poderíamos dizer que ele permanecia o tempo todo com o seio da mãe na sua boca, uma fantasia de ligação perene com ela.

Pela sua boca Freud através da linguagem oral e escrita sublimou sua oralidade, produzindo um legado inestimável, sendo assim chamado pai da psicanálise e de todos os psicanalistas. Ou seria a mãe que deu a luz uma filha de irretocáveis qualidades e beleza, a psicanálise ?

Não podemos esquecer que sua filha Ana Freud trouxe contribuições importantes para a psicanálise, notadamente no que se refere aos mecanismos de defesa do Ego.

Por outro lado também Freud foi vitima do câncer de boca, ao que se supõe desencadeado pelo seu habito de fumar charutos, falecendo em virtude desta doença.

Como os instintos de vida e de morte são inconscientes, agindo na inconsciência de seu portador e as pulsões tornam-se conscientes através de representações mentais, as escolhas objetais são em parte conscientes e em parte inconscientes.

A discussão a respeito é complexa, no momento não conclusa. Assim a escolha de marido e mulher detém aspectos conscientes e inconscientes, o mesmo ocorrendo com a escolha da orientação sexual, que abordaremos parcialmente na seqüência deste trabalho.

Assim a escolha objetal promovida pela pulsão é algo indefinível, questionável. Haveria mesmo escolha ou ela seria uma vicissitude promovida pelo acaso, dentro da teoria do caos,(8) tão vastas são as possibilidades combinatórias. Daí talvez alguns grandes nomes como Bion e Lacan terem feito algumas incursões pela matemática e suas fórmulas.

Para Lacan as dificuldades de se encontrar ligações claras, identificáveis entre o desejo(pulsão) e o objeto são explicadas pelo fato de ser este objeto faltante, não alcançável, sendo o desejo indestrutível, apontando para o objeto como algo que só subsiste nos traços mnêmicos infantis, inacessíveis a consciência devido a repressão.(9)

Corresponde a dizer que este objeto inexistente move o ser humano na direção do nada, do idealizado ou seja, o que só existe na idéia, no pensamento. A expressão clinica da frustração não superada, da falta do objeto é o terrível sentimento de solidão e de vazio de alguns pacientes, que ás vezes não tem remédio.

 

 O próprio corpo tomado como objeto da pulsão sexual. Sexualidade anal.

 Retornando a Freud ele nos diz que da mesma forma como a boca,(os lábios), a zona anal pode ser tomada pela pulsão sexual como objeto auto-erótico e se constitui em uma segunda zona erógena de grande importância.

Com freqüência esta área conserva durante toda a vida uma parcela considerável da excitabilidade genital. A transformação da alimentação da criança de liquido para pastosa e sólida, do leite para uma alimentação onívora, e acompanhada pela mudança de consistência e formato das fezes, providenciam para que não faltem a esta zona excitações intensas.

As crianças tirariam proveito da estimulação anal, retendo as fezes até que seu acúmulo provocasse contrações musculares provocando ao passar pelo ânus forte estimulo da mucosa, provocando ao mesmo tempo prazer e dor.

Alguns bebês se recusam sistematicamente a evacuar quando colocados no penico, reservando-se o direito de fazê-lo quando quiserem. Ao desfazer das fezes a criança exprime sua docilidade diante do meio externo e ao recusar desfazer-se delas, sua obstinação. A defecação proporciona assim a primeira oportunidade em que a criança deve decidir entre uma atitude narcísica e uma atitude de amor objetal.(9)

Freud observou a coexistência de três traços de caráter: a ordem, parcimônia e obstinação, existente em alguns de seus analisandos, como indicativos de uma intensificação dos componentes anal eróticos na constituição sexual deles.

A acentuação daqueles traços de caráter, se constituem em defeitos de caráter: avareza, formalismo e obstinação extrema (teimosia burra) e acabaram merecendo o rótulo de caráter anal. S.F chegou mais tarde a conclusão de que o desenvolvimento da libido no homem, até chegar a fase da primazia genital, deve ser precedida por uma organização pré-genital, na qual o sadismo e o erotismo anal desempenham importante papel.

A generalização de tudo que tratamos anteriormente neste trabalho nos permite dizer que, o próprio corpo, seus órgão e sua superfície são um vasto território de onde surgem os impulsos instintivos, onde também atuam, exigindo da mente um processo de simbolização(representação simbólica).

A retenção da massa fecal é usada intencionalmente, para tirar proveito da estimulação como que masturbatória da zona anal, ou para ser empregada na relação com as pessoas que cuidam das crianças. A estimulação real da zona anal não é rara em crianças mais velhas.

Para que os impulsos instituais anal eróticos sejam em parte sublimados ou assimilados na formação de traços de caráter, outra parte encontrará um lugar dentro da nova organização sexual do individuo, na vida adulta.

Por isto grande número de homossexuais masculinos adultos são narcísicos, obstinados quando não se tornam opositores a tudo e a todos e agressivos, mesclando estas características de forma alternada.

SF supõe que na experiência clinica de muitos analistas tenham aparecido fantasias infantis a respeito do nascimento das crianças pelo ânus, como também de que o ato sexual entre homens e mulheres é efetivado pelo ânus, fantasia que subsiste em grande números de adultos.

Em virtude de observações desta ordem Freud viu em pênis, fezes e bebê significados intercambiáveis entre si. Da própria cultura popular emerge a fantasia dos “bem dotados” como sinal de potência garantida e objeto do desejo das mulheres, bem como de prazer sexual garantido para elas.

Por outro lado não é infreqüente na análise de mulheres deparamos com o desejo reprimido de possuir um pênis, como um homem. L.A nos conta em sua segunda sessão de análise,(já estivera anteriormente em processo de análise com outros colegas): “sempre senti como se tivesse um órgão masculino; durante todo o casamento, e até agora sofro de inflamações na bexiga(cistite de repetição). Nunca tive prazer no sexo.” SF chamou este desejo de “inveja do pênis” e o incluiu no complexo de castração.

Se esta condição feminina não for vencida, estaremos diante de mulheres com características masculinas acentuadas, que competem o tempo todo com os homens, tentam suplantá-los na relação conjugal, ou no trabalho, terão por vezes grande dificuldade de engravidar, dificuldades de estabelecerem ou manterem vínculos heterossexuais de amor, ou terão orientação homossexual.

Em outras mulheres não encontramos este desejo por um pênis. Este desejo é substituído pelo desejo de um bebê, é como se tais mulheres(S.F) houvessem compreendido que a natureza dá bebês ás mulheres como substituto para o pênis que lhes negou.

Nas mulheres cujo instinto sexual caminha para a primazia da genitalidade adulta o desejo por um pênis transforma-se em desejo por um homem, elegendo-se assim um objeto próprio e adequado a função reprodutiva da mulher. Neste caso a pulsão ou instinto sexual atingiu seu objetivo no que importa a espécie, a reprodução, mas que não é fundamental para o individuo.

O pênis tem contudo outro significado anal erótico, o relacionamento entre o órgão genital masculino e a passagem revestida da membrana mucosa que preenche e excita, já tem o seu protótipo na fase anal sádica. A massa fecal representa como que o primeiro pênis e a mucosa que reveste o reto a vagina (S.F).

Assim alguns meninos se comprazem com um jogo erótico perverso com colegas do mesmo sexo, até a puberdade ou mesmo durante ela, para depois abandonar ou não esta prática, ou então tornar-se ou manter-se homossexuais.

O erotismo anal encontra uma aplicação narcísica na realização do desafio que consiste em uma importante ação por parte do Ego contra as exigências feitas por outras pessoas.

Da exigência feita por outras pessoas (pelo mundo externo), vamos enfocar as exigências ao objeto, mudando assim o vértice de observação.

 

 

Exigências objetais(feitas ao objeto)

 Retornando a Klein e seu magistral trabalho inveja e gratidão(1957), ela conclui que a inveja é um poderoso fator na destruição das raízes do sentimento de amor e gratidão, que afeta a mais antiga das relações, a relação com a mãe. A autora considera que a inveja é uma expressão sádico oral e sádico anal de impulsos destrutivos desde o inicio da vida, pelo menos desde o nascimento.

Abraham (Karl), analista de Klein descreveu a generosidade como uma característica oral, a inveja e a hostilidade caracterizariam um segundo estágio, o sádico oral. Ele considerava os elementos anais como componentes importantes da inveja e supunha a existência de um aspecto constitucional na intensidade dos impulsos orais, que ele vinculou a enfermidade maníaco-depressiva.

Começava assim com Abraham e Klein uma ampliação da visão da psicanálise sobre a psique, a mente e os transtornos mentais. A conseqüência destes trabalhos foi ampliar a aplicação desses conhecimentos psicanalíticos para além das neuroses, rompendo fronteiras, até então posse da psiquiatria.

De acordo com Klein, em sua: “Uma curta história do desenvolvimento da libido, a luz das desordens mentais”, escrita em 1924, Abraham não faz referência a hipótese do instinto de vida e de morte de Freud, que em 1920 publicava “Alem do Princípio prazer,” mas ao aventurar-se na análise de pacientes maníaco-depressivos Abraham avançava naquela direção.

Ao longo de todo o seu trabalho Klein enfatiza a fundamental importância da primeira relação objetal do bebê, a relação com o seio materno e com a mãe, concluindo que esse objeto imaginário é internalizado, ficando enraizado no Ego, vindo a ser seu componente inicial e neste processo ficaria assentada a base para um desenvolvimento mais ou menos sólido da unidade do ego.

O ter sido parte da mãe dá ao bebê, pelo nascimento o sentido da perda de unidade e de segurança, que ele irá buscar pelo resto de sua vida nas relações objetais.

Poderíamos portanto tomar o anseio universal pelo estado pré natal, como sendo também uma expressão premente e permanente de idealização, aquilo que nunca será realizado e que só pode atingir seu objetivo pela simbolização, que permite a descarga parcial da pulsão. Quando não houver a simbolização, a insatisfação persiste, mantendo uma quantidade de energia no corpo, nos órgãos, origem das doenças psicossomáticas; já que a unidade mente-corpo é indissolúvel.

A ansiedade suscitada pelo nascimento é fonte de ansiedade persecutória. O processo de nascimento em parte realizado pela mãe, através das contrações uterinas é sentido pelo bebê como expulsão e ruptura da unidade pré-natal. Metaforicamente com a expulsão do paraíso e .... “de hoje em diante tomaras o teu leite com o suor do teu rosto,” que irá perdurar pelo resto da vida.

Esta experiência, necessariamente dolorosa, antecipa a relação de duplo vínculo com a mãe, o seio bom e o seio mal, antecipa ainda o sentimento fragmentário do ser se enxergarmos o nascimento como o “big-bang” da existência, da vida enquanto Self e Ego, uma vez que pela primeira vez a mãe e bebê constituem dois selfs e dois egos.

A experiência do nascimento é também uma experiência de cisão de si mesmo, ou seja o que é bom e seguro, o útero e a mãe foi cortado do bebê e o que é frágil, dependente, fica com ele.

A busca da condição de segurança e estabilidade será o móvel de toda a vida e a busca do objeto que representa esta unificação impossível a vicissitude do desenvolvimento humano. Destino do amor e do instinto de vida ,da construção, mas também destino do ódio,da inveja, do instinto de morte e da destruição.

A vida arcaica do bebê caracteriza-se por uma sensação de perda e recuperação do objeto bom. O útero materno tem formato apropriado para ser continente, (contem em seu “seio” o bebê), enquanto o seio materno tem o formato inverso de conteúdo, (o leite). Assim o bebê que era interno em relação ao útero passa a ser externo em relação ao seio e terá que internalizá-lo, para sentir-se seguro novamente, para recuperar o objeto perdido. A capacidade de internalização pelo bebê é medida segura de sua futura saúde mental. Podemos dizer de forma metafórica que o seio é o útero invertido.

As fantasias a respeito do seio são necessariamente inconscientes, não tem acesso a memória e a verbalização,(são pré-verbais). Quando surgem transferencialmente no “setting” analítico, aparecem na forma de lembrança de sentimentos e terão que ser reconstruídos em palavras pelo analista.

A inveja contribui para a dificuldade do bebê construir seu objeto bom,(que também é ele mesmo), pois sente que a gratificação que lhe foi negada, foi guardada para uso próprio dela, a mãe. A inveja é o sentimento raivoso de que outra pessoa possui, desfruta algo que se deseja e o impulso invejoso o de tirar este algo para si mesmo ou estragá-lo.

O ciúme é baseado na inveja, mas envolve a relação com pelo menos duas pessoas, diz respeito ao amor que o individuo sente por uma delas e que foi ou pode ser tomado pela outra, o rival. A voracidade é uma ânsia impetuosa, insaciável que excede o que o individuo necessita e aquilo que o objeto pode e quer lhe dar.

A nível de fantasia inconsciente a voracidade visa escavar completamente o objeto, sugar até deixar o seio seco e então devorá-lo, visa a introjeção destrutiva, ao passo que a inveja busca não somente este despojamento, esta invasão, mas também depositar maldade primordialmente excrementos na mãe, com a finalidade de estragá-la, destruí-la. A voracidade está ligada primordialmente a introjeção e a inveja a projeção.

Segundo o dicionário reduzido de Oxford, ciúme significa o que alguém tomou, ou que algo que pertencia a alguém está sendo dado a outrem. Assim o bebê sente que a mãe, que lhe pertence é tomada pelo pai ou esta sendo dada a ele. Este conceito antecipa a relação edipiana discutida por Freud em fases mais tardias, dando a ela contexto mais primitivo, fase iniciada mais precocemente.

Segundo Klein o seio é o primeiro objeto a ser invejado, pois ele tem tudo que o bebê necessita e deseja, tem um fluxo ilimitado de leite e de amor que guarda para a sua própria gratificação.

Se a inveja é excessiva, para aquela autora indica que traços esquizóides e paranóides são anormalmente acentuados e que este bebê esta predisposto a ter uma doença mental esquizóide, esquizotípica ou esquizofrênica.

Esta inveja deve ser diferenciada de suas formas subseqüentes( inerentes na menina ao desejo de tomar o lugar da mãe e no menino a posição feminina), nas quais a inveja não mais se focaliza no seio materno, mas na mãe que recebe o pênis do pai, que tem bebês dentro dela, que dá a luz estes bebês e que é capaz de amamentá-los.

Se considerarmos que a privação intensifica a voracidade, o medo e a ansiedade persecutória e que existe na mente do bebê a fantasia de um seio inexaurível, torna-se compreensível que a inveja surja quando o bebê é inadequadamente alimentado, ele odeia e inveja aquilo que sente ser o seio malévolo. É compreensível que o seio satisfatório seja também invejado pela “facilidade” com que origina o leite, um dom inacessível para o bebê.

No “seting” analítico, em função da transferência, o paciente invejoso reluta em atribuir sucesso ao analista, poderá sentir que sua crítica feroz desvaloriza e estraga o analista, que então não poderá ser introjetado como um objeto bom. A convicção verdadeira no trabalho do analista implica na gratidão por uma dádiva recebida. O paciente invejoso também pode sentir que é indigno de beneficiar-se da análise pelo sentimento de culpa.

Com as observações feitas no parágrafo anterior podemos pensar no processo da análise, como um processo de reconstrução do objeto bom, supostamente estragado. Quando o bebê se desenvolve mais, chega a compreensão de que o objeto primário, o seio bom e o seio mal pertencem a uma só pessoa, a mãe, o objeto é então unificado, o que vai ser também sentido pela internalização, como uma situação de integração do Ego e na aceitação da mãe e de si próprio como um todo e único ser.

O bebê que devido a intensidade dos mecanismos esquizo-paranóides não conseguir unificar o objeto e ao mesmo tempo manter separados o amor e o ódio será vítima da ambivalência, tendo sérias dificuldades de manter as relações objetais. Dito de outra forma, o objeto e o próprio indivíduo tem que estar suficientemente integrados, o que se dissocia é o afeto, pode-se assim amar o objeto imperfeito com aspectos bons e maus.

O desejo do bebê pelo seio inexaurível e onipresente não reflete apenas o desejo pelo alimento, mas também a libertação da ansiedade persecutória, o medo da maldade da mãe e de seus próprios impulsos destrutivos. A construção do objeto bom internalizado implica em suportar alguma frustração e a confiança na possibilidade de recuperar o objeto que assim perdido temporariamente se erige como “o outro” dotado também de desejos próprios e autonomia, mas com a possibilidade da manutenção do amor.

 O seio que retorna e pode ser fruído é sentido como evidência de que o individuo não foi esquecido, de que o objeto permanece vivo e bom e o individuo também. Em contraste com o bebê, que devido a inveja, foi incapaz de construir um objeto bom interno, uma criança com boa capacidade de gratidão e de amor, pode suportar a ausência do objeto de afeto e estados temporários de inveja e ódio sem ficar profundamente danificada.

No curso do desenvolvimento do ser humano, a relação com o seio materno torna-se a base para a dedicação a pessoas, valores e causas, sendo assim absorvido o amor, que não permanece exclusivamente vinculado ao objeto originário, ou seja o seio e sua portadora, a mãe.

M.Klein refere-se a essa primeira ligação objetal como a base para todas as relações de afeto, para o desenvolvimento das relações sociais do individuo com parentes, amigos, vizinhos, colegas de trabalho, etc. Segundo aquela outrora estas experiências são também alicerce para a capacidade do individuo de sentir-se feliz com a existência. Cremos que nesta mesma direção é possível dizer que o sucesso da elaboração do édipo é fator preditivo importante da felicidade do individuo.

A riqueza interna deriva de ter o objeto bom sido assimilado de tal maneira que o individuo se torna capaz de compartilhar melhor os dons do objeto. Isto torna possível introjetar um mundo externo mais amistoso, a que se segue um sentimento de maior riqueza. Há razões psicológicas profundas para que a inveja possa ser sentida como o maior dos pecados, pois estraga o objeto bom, fonte da vida.

O sentimento de haver danificado o objeto originário prejudica a confiança do individuo na sinceridade de suas relações subseqüentes e o faz duvidar de estar preparado para o amor e para o que é bom.

Reconhecer as virtudes do objeto, aceitar como próprios a inveja, a voracidade, a agressividade, faz o individuo ocupar a posição depressiva e abandonar a posição esquizo-paranóide, é a única saída saudável.

 O estabelecimento do vinculo, resultante das relações objetais. Configurações vinculares.

 Segundo Zimerman (10) a psicanálise deu um salto de complexidade e de qualidade, quando indo além dos ensinamentos Freudianos, fundamentados basicamente nas inatas pulsões libidinais e agressivas, com as respectivas angústias e defesas e com Melanie Klein fundamentalmente baseada nas pulsões sádico destrutivas, na existência de objetos parciais e totais, arcaicas fantasias inconscientes, com intensas angústias e com defesas muito mais primitivas do que as descritas por Freud e por sua filha Ana Freud, ela adquiriu o paradigma de uma permanente vincularidade no campo analítico.

Muitos autores antes de Bion fizeram claras alusões a importância do vínculo em distintas situações analíticas, M Klein por vezes mencionava a relevância clinica do vínculo, como no seu relato da análise do menino Dick(1930): “A análise desta criança tinha que começar pelo estabelecimento de um contato com ela.” J.Bowby (1969), psicanalista inglês, estudou os vínculos do ponto de vista do comportamento social.

A escola Argentina de psicanálise tem dado importante contribuições ao estudo dos vínculos nas interações humanas. Outros autores como Ferenczi, Winnicot, Kohut, etc, deram significativo destaque ao vínculo primitivo do bebê com a mãe e vice-versa e as recíprocas emoções entre paciente e analista.

Também não resta dúvida de que os estudos teóricos e técnicos dos fenômenos ligados a transferência, contra transferência e resistência contra resistência estão ligados ao conceito do vínculo. Porem, coube a Bion o mérito de ter ampliado, aprofundado e divulgado a importância essencial de como os vínculos se combinam, determinando as inúmeras formas das configurações vinculares.

O termo vínculo vem do étimo latino vinculum que significa atadura, união duradoura. O conceito de vínculo alude a alguma forma de ligação entre as partes que a um só tempo estão unidas e separadas, delimitadas entre si. Cabe uma analogia com o hífen que a um só tempo une e separa certas palavras, redefinindo-as.

Assim Bion definiu vinculo como sendo uma estrutura relacional emocional entre duas ou mais pessoas ou entre duas ou mais partes da mesma pessoa. Os vínculos se organizam em uma estrutura, formando um sistema no qual cada um dos seus elementos influencia e é influenciada pelos demais.

A melhor metáfora é a dos sistemas orgânicas, como o sistema digestivo humano: boca, faringe, esôfago, fígado, etc, exercem funções específicas, mas uma gastrite ou pancreatite traz problemas para a digestão, função do sistema como um todo. A retirada do fígado ou sua falência não só destrói a função do sistema, mas todo o organismo e leva a morte. Logo existe uma interação entre todos os elementos vinculares ou vinculados.

O que estabelece ou forma o vinculo é a emoção, sem emoção não há vinculo. Seja qual for a emoção ela tem uma dupla face ou seja ela comporta uma anti-emoção, por exemplo: amor e ódio. Assim no lugar do clássico conflito entre amor e ódio, Bion propôs uma ênfase no conceito entre as emoções e anti-emoções presentes em um determinado vínculo. Ele postulou que menos amor(-L) não significa ódio e menos ódio (-H) não significa amor.

O tipo de emoção predominante no vínculo é que vai articular, definir e caracterizar a natureza do mesmo. Os vínculos são inerentes, isto é sempre existem e acompanham o sujeito durante toda sua vida. Eles são polissêmicos uma vez que comportam vários significados: por exemplo: amor bandido, louco amor, amor de perdição, etc. A estrutura dos vínculos é de natureza reticular, (na forma de rede), na qual todos os elementos estão entremeados, por vezes amalgamados.

A noção do vínculo está intimamente ligado ao modelo conteúdo-continente de Bion, abordando três possibilidades: a forma parasitária, em que um parasita, o outro que é parasitado, nada dando em troca, a comensal: as pessoas estão vinculadas de forma a partilhar um mesmo objetivo ou prática (por exemplo um time de futebol ou o elenco de um filme) e a simbiótica, que neste caso não tem a forma de união indiferenciada, mas sim a um conceito biológico de que as pessoas vivenciam uma recíproca e fértil troca de vida (por exemplo o casamento e nascimento de filhos).

A relevância maior da concepção de Bion a cerca dos vínculos é a sua conceituação de que os vínculos não se limitam as relações inter-pessoais(vínculos externos), mas também as interações intra-pessoais isto é a de diversas partes do psiquismo, ( o pensamento com o sentimento, um pensamento com outro, um sentimento com a percepção dele, a parte infantil do sujeito com sua parte adulta,etc). Cabe portanto aos vínculos o papel de integração de várias partes do individuo e deste com os outros sujeitos.

Como conseqüência do acima exposto podemos concluir que se o individuo tem um sistema vincular harmônico, se as partes do seu sistema psíquico (mental), estão vinculadas de forma a permitir que se mantenham ligadas, devidamente delimitadas entre si, que se reconheçam e mutuamente se regulem, provavelmente assim também ocorrerá com os vínculos externos ou exteriores. Ou seja a vinculação do individuo humano com seus semelhantes mantém uma relação especular com o que se passa no seu mundo interno.

Bion enfatizou a importante contribuição para a pratica clinica do fenômeno psíquico que ele denominou de ataque ao vínculo, no qual o paciente se nega a tomar conhecimento de determinado sentimento ou de determinada verdade, cujo conhecimento é muito doloroso e forças inconscientes o impelem a rejeitar as interpretações do analista de sorte a utilizar recursos defensivos que ataquem sua capacidade de compreender. Bion descreveu três tipos de vínculos: o vinculo de amor, o vinculo de ódio, e o vinculo de conhecimento aos quais Zimerman propõe que se inclua o vínculo do reconhecimento.

Os quatro vínculos estão em permanente interação (inter-ação), amalgamados, formando distintas configurações vinculares. O vinculo de amor também se manifesta com uma possível oposição(-L ) a (L), em que L é love. Fato que pode ser ilustrado com a situação do puritanismo, ou seja em nome do amor o individuo se opõe a obtenção da emoção de prazer, pois os referidos sentimentos de amor extremado, quase sempre se devem a formações reativas contra um ódio subjacente.

O que realmente importa é como as diferentes formas de o nosso paciente amar e ser amado se configurem dentro dele (em relação a seus objetos e relações objetais, que estão internalizadas ). Em se tratando de um casal, trata–se de uma amor saudável, no qual prevalece uma ternura e atração, com respeito e consideração? Ou o único laço entre a dupla é o “Erótico,” só genital? Ou o vinculo é de “Amor platônico”, com muito carinho, mas sem vida genital?

Também é comum que o amor se configure sob a forma de um tirânico controle obsessivo e de poder de um sobre o outro; ou ele pode ainda estar marcado pela presença paranóide de um “ciúme delirante” que fica racionalizado como prova de um grande amor. Muitas vezes esta mesma racionalização de um grande amor, pode estar alicerçado em uma esterilizante dependência recíproca do casal.

 Segundo o Dr. Zimerman pode também ocorrer um amor sadomasoquista, uma forma de amar que parece ser para ele a mais freqüente de todas, na qual surgem fatores inconscientes ancorados em competitividade, inveja, disputa por valores e insondáveis querelas narcisistas. Em suma, tanto pode estar acontecendo um vinculo construtivo como pode estar ocorrendo um vinculo escravizante e destrutivo.

O vinculo do ódio pode ser manifesto, como no encontro de torcidas uniformizadas de times de futebol, ou de adversários em uma luta de vale tudo, embora existam regras, ou latente quando se exprime através da hipocrisia em que trato alguém como amigo, mas na primeira ocasião faço um comentário cínico que denigre sua imagem. Pode servir de exemplo as atrocidades cometidas pela fé religiosa extremada em nome do amor a Deus.

O ódio pode porem estar a serviço da vida do ponto de vista psicanalítico, da mesma forma que a agressividade, quando por exemplo o adolescente sente que não está sendo respeitado pelos seus pais e nem entendido por eles. Porem uma análise mais aprofundada pode mostrar que estão exercendo uma atividade de contestação com a finalidade de adquirir uma identidade própria, ou seja ser eles mesmos e não o que os outros querem que ele seja. Algo equivalente a isto pode ocorrer na prática analítica quando o paciente é interpretado pelo analista como rebelde ou invejoso e ele esteja lutando para ser ouvido, entendido.

Relativamente ao vinculo do ódio temos três tipos de pacientes ou de pessoas: 1)aqueles que não conseguem odiar; 2) aqueles que não conseguem parar de odiar 3) aqueles que odeiam e perdoam. No transcurso de um tratamento analítico os primeiros deverão desenvolver a capacidade de odiar, de se indignar sem que se sintam sempre culpados, os segundos deverão aprender a distinguir as situações que justificam a permanência do ódio e os fatos pregresso