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Notas sobre a Interpretação

Uyratan de Carvalho, Psicanalista Clínico e Didata. Membro Fundador do Colégio Brasileiro de Psicanálise. Membro Honorário da Sociedade Brasileira de Psicanálise e Cultura. Salvador, Bahia. Membro Honorário da Associação Psicanalítica do Vale do Paraíba (

As coisas lentamente se transformam quando eu as digo.

Clarice Lispector.

O que analistas interpretamos são os discursos verbais e não-verbais dos nossos pacientes, pelo que, na clínica, nos concentrarmos na escuta do que nos vem da parte do paciente – a fala –   que sempre lutará bravamente para garantir e preservar o sentido, condição esta que, mor das vezes, acaba por criar-lhe armadilhas, já que, no nível inconsciente, o que busca é a satisfação dos desejos que sempre acabam por .transparecer nos sonhos, nas parapraxias, no sintomas, na associações livres, etc.

Assim, na prática, falando-se de interpretação, se diz da intervenção do analista para atribuir significados ao que surja do paciente com os formatos de sonhos, de associações livres, de fuga de palavras, de esquecimentos, de pleonasmos, etc., tomada a interpretação dos sonhos como paradigma para descrever os conteúdos latentes dos discursos verbais e não-verbais, das resistências, das transferências, etc.

Isto posto, o profissional de há de ter presente a questão da neutralidade ao intervir, já que qualquer valorização tendenciosa de partes das queixas comprometerá a condição de analista, pelo que se impõe não julgar moralmente, não aconselhar, não tomar partido nos conflitos ainda que o paciente o peça com insistência alegando necessidades urgentes.

O cuidado que acima se recomenda é exigível pelo fato de as motivações que permeiam as necessidades apresentadas pelo paciente, na verdade decorrem de desejos sexuais ou agressivos que ele apresenta com a intensidade de uma compulsão denotando forte carga de angústia.

Diante disso compete ao analista manter-se neutro, definindo-se como um investigador e por isso mesmo se valendo das associações livres, das observações do funcionamento mental inconsciente e da apreciação dos quadros transferenciais e contratransferenciais.

Pois assim o será porque buscamos os conteúdos latentes em qualquer situação, inclusive nos fenômenos acima citados, bem como dos silêncios, já que  em todas as manifestações, sejam elas ativas ou passivas, importando-nos prioritariamente o subjacente a que juntamos as contratransferências, pelo fato de todos estes fatores resultarem, basicamente, da formação de compromisso entre a instintualidade, a resistência e a angústia.

Por isso mesmo na prática, se diz que o analista sempre se manterá atento àquilo que o paciente não diga já que há de considerar a importância da veemência dos quadros resistenciais, aos quais se somam as ressonâncias que se  desencadeiam no psiquismo do analista, gerando toda sorte de processos contratransferenciais.  

Quanto ao silêncio, de J-D Nasio (1999) se tem que na escuta há de o analista focar “(...) o dito que signifique o silêncio de um recalcamento”.

Veja-se que tal postura corresponde ao que se diz do ágrafo[2] usado pelos teólogos, aqui, por causa de Nasio, tornado áfono e assim usado para se falar do impronunciável, do que não caiba numa redução verbal, numa frase.

Não caiba num ego entulhado de angústia.

Assim, quanto ao dito, para o analista importará a maneira como o paciente o diga, sendo tomado o que diga como um compósito de processos defensivos do ego, o que nos leva a Nietzsche[3] quando diz: “Toda palavra é um preconceito”.    Deste modo, se tem que o trabalho analítico acontece em função do experienciado no nível inconsciente e preconsciente em ambas as poltronas, já que se instalam, na situação, as resistências às mutações no lado do paciente e as inevitáveis reações contratransferenciais do lado do analista que, com intensidades diversas, vão se manifestando ante as respostas positivas e/ou negativas eliciadas pelo paciente.

Toda resposta desencadeia uma resposta.

Resumindo o acima dito, se tem que do analista é exigível o conhecer Teoria Psicanalítica até o ponto de se tornar apto para discernir, com propriedade, as características das resistências que caracterizem os discursos do seu paciente  bem como, com abrangência, o máximo acerca das suas próprias respostas contratransferenciais.

Ora, para os analistas, as resistências têm raízes no inconsciente, por isso mesmo as suas interpretações contemplarão o aqui e agora da clínica ante as manifestações indiretas nos sonhos, nos atos falhos, nos chistes, nas associações livres, nas associações de idéias, nos sintomas, etc.

Pensando assim, o profissional estará, então, considerando as resistências como advindas de experiências que  trazem em si determinadas funções, pelo que nunca tentará superá-las pela sugestão ou por imposições, já que as contraposições adotadas decorrem da impossibilidade de abrir mão das gratificações e das necessidades infantis ainda instaladas.

Na mente dos pacientes muitas das resistências são absolutamente necessárias.  

Destarte, o importante no lidar com as resistências será ter sempre presente que tais fenômenos não põem ser tomados como obstáculos ao trabalho psicanalítico e sim fatores utilíssimos para a aplicação do conhecimento da Teoria Psicanalítica e para o aumento da destreza na aplicação da técnica. Na verdade a análise das resistências é o próprio método psicanalítico.

Quanto à fala, indo-se a um dicionário se tem que o termo se refere à ação ou faculdade de falar. No entanto, quando tal palavra é considerada psicanaliticamente, vamos tê-la, fundamentalmente, referida ao diálogo e, por extensão, à escuta.

Assim é que na clínica se vêem destacar o falar e o escutar, ambos compostos por elementos inconscientemente intencionais, condensados e disfarçados.

Quanto à condensação, esta é um processamento inconsciente resultante de uma conjunção de investimentos (catexizações) em sentimentos, idéias e afetos que acabam por se somar e se integrar nos discursos verbais e não-verbais, em função de determinantes vários, principalmente contrastes, semelhanças e contigüidades.

Lacan, sobre condensação, seguindo Freud (1900)[4], de forma prática associou-a como próxima da metáfora. Próxima porque elemento do processo primário (que é mobilizador) apoiado numa energia livre[5], não-ligada com os desejos inconscientes se realizando de forma imediata, sem os hiatos característicos (e impostos) para a formulação da linguagem manifesta.  

Assim, na fala, segundo Freud[6], há uma associação não equilibrada entre os conteúdos manifestos e os latentes, por haver sempre uma expansão do referido ao manifesto a exigir o necessário, em volume, para formular todo o enredo que caracterize tanto o relato de um sonho como o de qualquer outra produção que inclua desejos e em conseqüência angústia:

 A primeira coisa que se torna clara para quem quer que compare o conteúdo do sonho com os pensamentos oníricos é que ali se efetuou um trabalho de condensação em larga escala. Os sonhos são curtos, insuficientes e lacônicos em comparação com a gama e riqueza dos pensamentos oníricos. Se um sonho for escrito, talvez ocupe meia página. A análise que expõe os pensamentos oníricos subjacentes a ele poderá ocupar seis, oito ou doze vezes mais espaço.

Quanto ao disfarce este acontece quando, pela continência exercida sobre os discursos imposta pelo superego e/ou pela censura, se vê o indivíduo, inconscientemente, dissimulando e encobrindo material dos seus relatos.

A par do acima citado, há, também, o disfarce que  explica o oportunismo com que algum material proibido que por semelhança, contigüidade ou contraste consegue se imiscuir entre o material consciente, invadindo os discursos verbais e não-verbais, caracterizando, por exemplo, o que Freud chamou de associação livre.

Contudo, restam-nos, nas palavras, i. e., nas trocas de subjetividades que são aqueles fatores que fazem prevalecer, soberana, a dinâmica inter-pessoal, já que são, simultaneamente, geradores e formadores de pensamentos, de sentimentos, de julgamentos e de conceitos algumas vezes exatos, outras ambíguos ou então contrapostos entre si, tudo como o sugere Freud[7] ao dizer:

 As palavras, por serem o ponto nodal de numerosas representações, podem ser consideradas como predestinadas à ambigüidade; e as neuroses (por exemplo, na estruturação de obsessões e fobias), não menos do que os sonhos se servem à vontade das vantagens assim oferecidas pelas palavras para fins de condensação e disfarce.

 Ao que se pode acrescentar um comentário de Lalande[8] concorde especificamente com Freud[9] acerca dos disfarces que caracterizam os discursos:

 Em geral acredita-se que somos livres para escolher as palavras com que se revestem os pensamentos ou as imagens com que eles são disfarçados. Uma observação mais atenta mostra outras considerações determinando  essa escolha, mostrando também que, por trás da forma de expressão do pensamento, vislumbra-se um sentido mais profundo muitas vezes não deliberado. As imagens e falares usados preferencialmente por uma pessoa, poucas vezes deixam de ter importância para o juízo que se faz dela, enquanto outros continuadamente, se revelam como alusões a um tema que se mantém em segundo plano num momento, conquanto, poderosamente, tenha afetado o falante.          

 Apontando-se a questão da oposição como o fez Lalande e do disfarce como o fez Freud, pode-se aqui dizer que o diálogo – “(...) um intercâmbio de palavras entre o analisado e o médico[10] – é, na clínica psicanalítica, um fenômeno em que prevalecem percepções e representações diferenciadas entre dois indivíduos, a dar notícias do que Goblot[11] chamou de estados de consciência, sendo que, a par de tudo isso se soma a questão da escolha.

Por isso mesmo fiquemos aqui com estado e escolha.

Pois no estado se tem, primordialmente, a condição de dinamismo que caracteriza a fenomenologia psíquica onde nunca há imobilidade e sim a adição continuada de múltiplas variáveis acomodatícias – formações de compromisso – impostas pelas interações entre os sujeitos e os objetos compondo as situações que resumem o que se entende por relações objetais.

Pois é a partir do vivenciado nas interações – as relações objetais – que, em psicanálise, são definidas as condições de dinamismo – a psicodinâmica –  como uma característica do sistema psicológico marcado por uma intensa mobilidade intrínseca,  fundamentalmente  relacionada com os desejos, com as necessidades e com os processos defensivos ante as expectativas conscientes e inconscientes da incidência de estímulos externos e internos.

Jaspers[12], especificamente sobre a situação externa, assim a explicava:

 A situação externa, de outro modo tão mutável e diferente conforme os homens a quem se aplica, tem, no entanto, isto de típico: ela é para todos uma faca de dois gumes, incita e impede  e, inevitavelmente, limita, destróiÉ ambígua, insegura.

 Na compreensão psicanalítica, viver,

sobreviver, vencer, perder, sofrer, ser feliz,

despertar amor e ser odiado resulta de uma

escolha entre  as situações internas e as externas.

Daí ser lícito definir-se ego, em qualquer situação, como um estado resultante de incitações e de impedimentos que sempre transparecem na qualidade da fala e da escuta.

Ora, a fala e a escuta resumem a sessão psicanalítica.

 O ego, em qualquer situação, é um estado

resultante de incitações e de impedimentos.

 Já no referido à escolha se tem Dewey[13] a dizer:

 A escolha não é o emergir da preferência da indiferença: é uma preferência unificada que emerge de um conjunto de preferências competitivasPortanto a escolha razoável será somente a que unifique e harmonize diferentes tendências que estejam em concorrência entre si.

Falando-se de escolha, há que se falar também de subjetividades e nestas destacando-se a questão do estado emocional do analista e as suas manifestações contratransferenciais, todas ditadas por tendências e inclinações pessoais, além das manifestações incidentais, aquelas inconscientemente escolhidas que se apresentam nos bojos dos discursos verbais e não-verbais.

Em função do dito, mais uma vez, se traz Lalande[14], vez que ele, ao tratar do verbete estado, cita E. Goblot que conceituou estado de consciência, fazendo-o nos seguintes termos:

 (...) o conjunto complexo dos fenômenos  simultâneos existentes num dado momento.

 Assim, será útil ter-se a expressão estado de consciência” como oportuna para nos referirmos á complexidade das fenomenologias corriqueiras nos nossos consultórios por lá se verem acontecer, simultaneamente, duas situações:

 (i)            o paciente a se expressar com inibições e respostas censuradas;

 (ii)          o analista a se debater em meio às cadeias de procedimentos sugeridas por inferências que vão dando corpo às interpretações, estas exigentes de um processo de escolha para serem apresentadas ao seu paciente que, por sua vez, é o mais ativo gerador dos processos contratransferenciais.

Por isso mesmo se tem a caracterizar, em toda sessão psicanalítica, a questão da interpretação das interpretações[15], tarefa possível quando o analista adota o modelo semiótico para levantar a chave do código subjacente usado pelo paciente para interpretar as mensagens que recebe, tanto as do seu mundo interior quanto as do exterior, pelo fato de se contar com a semiótica[16] a “... nos habilitar a sistematizar[17] as conexões entre os diferentes níveis dos processos intrapsíquico e analítico.” (Gear, Hill & Liendo, 1981) [18].

Ora, assim o sendo há que se considerar a questão do estilo – a expressão dos pensamentos – que é marcado pela escolha das palavras e das metáforas, escolhas estas influenciadas pelos episódios arcaicos e atuais de descargas, de inibições, de repressões, de recalques, de supressões dos impulsos instintuais (IIS), que, inevitavelmente, exigem e se mantêm exigentes de uma infinidade de defesas.

Quanto as defesas ditas infantis no âmbito da fala dos indivíduos adultos, esta se iguala com leite, fezes, urina, etc., podendo, ainda, adquirir significados outros tais como instrumentos de ataque, de sedução, de louvação, de ameaça, principalmente nos quadros marcados por onipotência.

Tratando-se da fenomenologia referida nos parágrafos acima, convém que se traga Zetzel e Meissner[19] para a ampliação do importante conceito de estado de consciência, que, como já ficou dito, é na clínica experienciado tanto pelo analista como pelo paciente:

“A tendência universal da pulsão é a descarga, sendo que a descarga não acontece a não ser quando referida a um objeto. A descarga pulsional supõe a interação de energias instintuais e de estruturas de regulação. As estruturas de regulação controlam e freiam os processos de descarga e de deslocamento. A descarga de energia pulsional pode se realizar dentro de um vasto espaço que se estenda desde as formas de condutas dominadas pela pulsão, nas quais as estruturas de controle reduzem a um grau mínimo a tendência à descarga e ao deslocamento para formas de conduta mais reguladas, em que as tendências resultem refreadas. Assim sendo, dá-se uma transição, em que se passa de uma descarga instintual menos amadurecida, mais imediata e mais direta e por isso mesmo socialmente inapropriada, por se impor uma evolução para formas de descarga mais avançadas que se apresentem muito mais diferenciadas e de alguma forma socialmente apropriadas e adaptadas”.        

Veja-se como pano de fundo no longo excerto copiado, uma intensa atividade inconsciente trazendo a marca da necessidade de satisfações imediatas, por ser o funcionamento, no nível inconsciente, regido pelo princípio do prazer, vale dizer, pelo processo primário, sabendo-se, entretanto, que em todo o tempo vige uma simultaneidade de manifestações conscientes e inconscientes, fato que levou Freud[20] a dizer:

Agora sabemos a diferença entre uma apresentação consciente e uma inconsciente, não sendo as duas, como supúnhamos, registros diferentes do mesmo conteúdo em diferentes localidades psíquicas, nem tampouco diferentes estados funcionais de catexia na mesma localidade e sim uma apresentação consciente a abranger a apresentação da coisa somada à apresentação da coisa apenas. O sistema inconsciente contém as catexias da coisa dos objetos, as primeiras e verdadeiras catexias objetais. O sistema Pcs ocorre quando essa apresentação da coisa é hipercatexizada através da ligação com a apresentação da palavra que lhe corresponda. Assim sendo, podemos supor que essas hipercatexizações são as que provocam uma organização mais elevada possibilitando que o processo primário seja sucedido pelo processo secundário dominante no Pcs.

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 Considerando-se tudo o que acima foi dito, ter-se-á sempre por importante, o fenomenológico na situação psicanalítica como o são o estado de consciência, a percepção e a representação. Passemos a eles.

 — Estado de Consciência

Veja-se que, fundados, por oportuno, em Goblot, mas considerando a expressão no âmbito da psicanálise, se pode dizer que estado de consciência é um ente fenomenológico a ser compreendido, como um “processo cuja ocorrência exige a interação simultânea de vários sistemas[21], cujas atuações se somam para levar a um efeito” [22]. Veja-se ainda como esta conceptualização é útil para se definir ego!

Assim entendendo-se estado de consciência, será aceitável tomá-lo como sinônimo perfeito de ego, principalmente quando se considera Weiss (1950)[23] que citando Federn, nos diz que ego é:

 (...) uma atual e contínua experiência mental.

 Do mesmo Weiss se tem que o ego, idealmente, há de estar apto para

(...) funcionar como uma unidade integrada não obstante ser constantemente desafiado por demandas internas e contingências externas, sendo que sua principal tarefa é mediar entre estas duas áreas. Assim, de acordo com vários critérios, dizemos de um ego autista ou realista, forte ou fraco, ou mais ou menos dotado de capacidade integrativa.”

 Tendo-se acima referência à força, nós, psicanalistas, observamos o ego a partir de respostas que indiquem capacitação (Carvalho, 2004)[24],  força suficiente para:

 (i)       tolerar a angústia;

 (ii)      modular e controlar as pulsões instintuais, bem como as demandas superegóicas;

 (iii)     relacionar-se com a realidade (adaptabilidade, teste de realidade, sentido de realidade);

 (iv)     ter sucesso nas relações objetais (modo e grau dos relacionamentos com os outros, principalmente os íntimos);

 (v)   processar o pensamento (funções que comandem e possibilitem o pensamento, bem como os graus de influência dos processos primário e secundário);

 (vi)  demonstrar adequação nos sentimentos latentes e manifestos.

— Percepção

 

                                                                                Não são propriamente as coisas que nos   

                                                                                perturbam. Perturbam-nos as opiniões

                                                                                que tenhamos sobre as tais coisas.

                                                                                       Epicteto (século I dC)

                                             

Quanto à percepção, toma-se aqui a concepção de Abbagnano que ele apresenta resumida a quatro pontos:

 1.    não é o conhecimento completo e total do objeto e sim uma

      interpretação provisória e incompleta;

 2.    não encerra nenhuma garantia da sua validade, i. e., nenhuma validade;

 3.    como todo conhecimento provável, a validade da percepção deriva da prova à qual seja submetida e do sair-se confirmada ou rejeitada de tal prova;

 4.    não é um conhecimento perfeito e imodificável, possuindo a característica da corrigibilidade.

 Conquanto se tenham na clínica, respostas fundadas em experiências de percepção, estas, ainda assim, terão superior validade para um analista, que buscará causações nas evidências de fragilidades, de processos defensivos, de graus de angústia, porque ditados em função de tendências, desejos, temores, sugerindo, nestes estados afetivos, aquilo que especificamente caracterize qualquer indivíduo que será sempre um prisioneiro da subjetividade.

Nada mais subjetivo do que se ver o ser humano enquanto fala a caminhar entre elementos conscientes e inconscientes, bem como entre interdições e liberações.

O problema todo reside no fato de ter de falar em função de escolhas de palavras e de temas, pairando sempre, no fundo, a possibilidade de erro no mínimo referida à escolha do “como dizer”, “o que dizer”, o “quando dizer” e o “quanto dizer.

A propósito, houve um certo Salustio[25], com muita propriedade, a dizer que

Estas coisas nunca aconteceram, mas sempre existiram.

 Pois é exatamente isso que nos diz o ser humano em suas falas, considerados os seus cuidados ditados por um existente inconsciente que não pode acontecer...

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      Todo ser humano é uma resposta a uma fenomenologia que se desenvolve no nível inconsciente.

Representação

 Quanto à representação, Laplanche e Pontalis (estes citando Lalande[27]) e Horowitz[28] (1988) confirmam a clássica compreensão que traz embutida a idéia de designação do que quer que se represente, com uma conotação, a de desencadeamento de algo advindo do íntimo de um indivíduo, o que Horowitz vai chamar de modos de representação dos pensamentos, de encenação, de imagem e de palavras (ou léxico)[29].

Sintetizando seu pensamento, tem-se, o segundo autor em tela a explicar os modos a partir de três subsistemas: o da encenação, pela neuro-musculatura esqueletal e a neuro-musculatura visceral; o da imagem nos modos táctil, olfatório, gustatório, visual e auditório e no léxico (ou palavras) nas diferentes linguagens.

Assim o sendo, resumindo-se, fica-se então com:

 (i)            encenações (gestos) expressões faciais e posturais;

 (ii)          imagens: imagens corporais, relacionamentos entre o self e os outros;

 (iii)         palavras: frases ou sentenças; listas; deduções lógicas.

 O fundamental, que se depreende acerca do tema nos ensinos ditados pelos grandes nomes, é que representação (die Vorstellung) indica o que representamos para nós mesmos como o diz Kaufmann[30] (1993), quando acrescenta: “Assim, o dicionário Robert a entende como o fato de tornar sensível (um objeto ausente ou um conceito) por meio de uma imagem, de uma figura, de um signo’”.

Freud (1895)[31], por sua vez, opõe representação ao afeto, dizendo, segundo Laplanche e Pontalis, que “Na histeria o quantum de afeto é convertido em energia somática enquanto que a representação recalcada é simbolizada por uma zona ou atividades corporais”.

Consideradas estas compreensões de representação, que de alguma forma se afinam entre si, convém se traga uma essencialmente prática, a de Charles Sanders Peirce (1839-1914)[32] ao tratar de signo: “(...) signo ou “representante” é toda coisa que substitui outra, representando-a para alguém, sob certos aspectos e em certa medida.”

Veja-se da validade desta definição a dizer da personalização numa situação qualquer (“representando-a para alguém”) reforçada com o destaque da condição do experienciamento e não da razão, sugerindo individualidade, i. e., um modo ímpar de ser, ou seja, algo como um jeito estritamente singular de ver e de dizer, a ser destacado quando se interpreta um discurso ou um comportamento qualquer.

Assim se fica com a importância do interpretar nos termos de um outro grande nome: Taylor[33]:

 A interpretação visa trazer à luz a coerência e o sentido subjacentes.

 Sim, em tudo há sempre algo subjacente, há sempre um estado resultante da “(...) interação simultânea de vários sistemas, cujas ações se somam para levar a um efeito” perceptível nas relações objetais, porque o indivíduo elicia respostas derivadas do inconsciente que, na verdade, são formações de compromissos entre uma coerência e um sentido, ambos insuspeitados na superfície dos discursos.

Por isso a importância dos dois fatores por Taylor ditos subjacentes – coerência e sentido – que estarão ativos nas trocas dos interlocutores, trocas estas que sempre contêm elementos disfarçados, que hão de ser buscados para se alcançar o máximo de informações acerca do vivenciado pelo ego, tanto no passado como na atualidade a exigir do analista olhos de ver e ouvidos de ouvir.

Assim se dizendo, restarão como importantes três itens, a saber:

 (i)            os elementos disfarçados em meio a material consciente;

 (ii)          o que seja vivenciado e significado pelo ego nos níveis consciente e inconsciente;

 (iii)         as representações.

 Sobre a questão do disfarce, o melhor a ser feito aqui será transcrever-se um excerto de Freud in  Volume XI. Segunda Lição:

 Mas o impulso desejoso continua a existir no inconsciente, a espreita de oportunidade para se revelar, concebendo a formação de um substituto do reprimido disfarçado e irreconhecível para lançar na consciência o dito substituto, ao qual logo se liga à mesma sensação de desprazer que se julgava evitada pela repressão.

 A referência ao vivenciado pelo ego é crucial porque é isto o que se nos apresenta no consultório: ego, descrito por Greenson[34] (1967), como a “superfície do psiquismo”, o lócus dos evidentes sinais de angústia, resultantes primordialmente das demandas do superego, do id e do mundo exterior.  

Entendendo-se assim, sobre o terceiro item, podemos sinteticamente dizer como o fez Lalanderepresentação é

 “O que é presente ao espírito; aquilo que se represente; aquilo que forme um conteúdo concreto de um ato de pensamento.

 Pois tudo isso nos interessa porque o trabalho psicanalítico se desenvolve em função da fala e também das linguagens não-verbais, sendo ambos (ressalvada a prevalência da fala) meios de comunicação do ser humano e instrumentos de descarga de afetos que hão de ser polissemicamente enfocados para se abranger o máximo do verbalmente eliciado bem como do que pareça meramente sugerido.

Acerca de fala (linguagem), trazendo-se Lacan[35], vai se ter que...

 (...) a função da linguagem não é informar, mas evocar.

 Por isso mesmo, quer se repetir aqui que se impõe um enfoque dito polissêmico por incluir este a busca de variantes[36], de reações afetivas – elementos essenciais das representações – ante o que quer que venha, na visão do indivíduo e do analista, embutido nas proposições, aquelas de ambos e as alheias – as biográficas – um dia internalizadas, aquelas consciente e inconscientemente relatadas pelo analisando, para que o profissional então, num trabalho de decodificação das representações[37] venha a...

 (i)                  compreender a importância do seu quadro contratransferencial no transcorrer da escuta, por perceber em si mesmo tais ou tais reações ante o uso, pelo paciente, de certas palavras e/ou de determinadas expressões não-verbais, tendo sempre presente que o analista não é apenas uma tela em branco sobre a qual o paciente projeta sua patologia, sendo, também, alguém que pode produzir respostas que emanem dos seus conflitos inconscientes em função de estímulos advindos da problemática do paciente;

 (ii)                conferir a propriedade no uso das palavras por parte do paciente, destacando, em havendo dificuldades, a possibilidade de estar a propriedade sendo prejudicada por determinantes afetivos conquanto o paciente aparente calma;  

 (iii)               alcançar a motivação das distorções de palavras (inclusive das nunca antes verbalizadas), por sugerirem a ação de fatores estressantes preconscientes, o que, por sua vez, entre outras informações, dê uma boa idéia da severidade do superego, bem como garanta material útil para a formulação das reconstruções de experiências ditas esquecidas da história infantil do indivíduo;

 (iv)               se por em condições de avaliar a intensidade das expressões das ações e das projeções, por serem ambas externalizações de experiências internalizadas arcaicas, destacando-se as ações que impliquem intenção e significado (consciente e inconsciente) a determinar os mais diversos comportamentos, bem como as projeções, estas também importantes por serem processos defensivos pelos quais um indivíduo atribui a outro tendências, interesses e desejos censuráveis em vez de reconhecê-los como parte de si mesmo;

 (v)                identificar redundâncias – pleonasmos  expressões idiossincráticas e palavras expletivas – buscando nos discursos manifestações (ainda que incipientes) da fenomenologia transferencial que estarão relacionadas com pensamentos e sentimentos remanescentes ativos, que marcados por afetos mais ou menos intensos, exigem, na perspectiva do indivíduo, esforços (catexizações) no sentido de minimizar a veemência da expressão para assim mascarar[38] os quadros latentes de angústia vivenciados ante os sinais (conscientes e inconscientes) da iminência da reedição de relações objetais arcaicas;

 (vi)               dirigir a atenção do paciente para seu próprio discurso e assim levá-lo a considerações sobre certas características que incluam atitudes que sistematicamente ele apresente nas suas relações objetais. Desse procedimento nos diz Coderch[39] (1987): “Al dirigir la atención del paciente hacia sus propias palabras o su comportamiento, el terapeuta promueve em aquél la capacidad para disociar una parte de su yo a fin de que, distanciándose de la vivencia imediata, sea capaz de observar e enjuiciar con certo grado de objetividad.”

 (vii)             atentar para as expressões do paciente, esforçando-se no sentido de identificar os deslocamentos do interesse do que esteja ligado a uma determinada idéia não aceitável pelo ego, para uma outra de alguma forma aceitável que com ela se relacione ainda que genérica ou indiretamente. A propósito, sobre deslocamento se lê em Laplanche e Pontalis: “A teoria psicanalítica do deslocamento apela para a hipótese econômica de uma energia de investimento suscetível de se desligar das representações e de deslizar por caminhos associativos.”

 (viii)            conhecer e ou confirmar o grau de narcisismo do paciente, para compreender, no aparentemente casual dos relatos, a expressão, a intensidade, as dificuldades nas relações com o seu mundo exterior íntimo (e também com o analista), a partir da questão das implicações eventualmente detectadas nas expressões cujos formatos dos enunciados não contendo objetividade, nem sendo explícitos, ainda assim, tacitamente, sugiram desejos, vontades, que não sendo preenchidos, resultem em queixas, em alterações de humor;

 (ix)               atentar para o fenômeno da ponta da língua e assim avaliar a importância dos processos defensivos ante a ocorrência deste fenômeno que Crystal (1985)[40]assim descreveu: “O sentido normal da expressão sem, no entanto conseguir recordar a palavra efetivamente (...) Descobriu-se que as pessoas acometidas de tal fenômeno são capazes de recordar certas características gerais da palavra, como o número de sílabas, o tipo de acento, etc.” Ora um fenômeno como o referido, na visão da psicanálise, retrataria uma condição de inibição ditada por um quadro de angústia intenso que não interferindo na memória, torna a palavra indizível[41], tudo suscitado por um importante  empobrecimento da energia disponível no ego, decorrente de um também importante investimento numa outra área para a manutenção de processos defensivos;

 (x)                considerar, nos discursos, o enfoque semântico, para assim obter recursos que ampliem a compreensão das motivações e a utilidade das mudanças e variações (incluindo-se, a par das duas citadas a questão da congruência e da coerência) no vocabulário usado do paciente no que se relacione com as significações quando das descrições que faça do seu mundo exterior, o que pode ser esclarecedor acerca das condições das funções egóicas (Bellak, 1973)[42] como, por exemplo,  juízoteste de realidaderelações objetaisbarreira ante pulsões, afetos e instintos, etc;

 (xi)               atentar para o aspecto tonal (ênfases) e assim conhecer: (i) da significação pretendida nas partes ou totalidade de uma narrativa, especialmente quando repetida, se alto, se murmuradas, com a provável  finalidade de meramente fazer destaques, ou então para sugerir mudanças de condições nas relações objetais, na instalação de sentimento de desamparo, de fracasso nos quadros relacionados com projetos de toda ordem; (ii) das condições egóicas relacionadas com graus de narcisismo e por isso mesmo, da intensidade dos sentimentos de culpa e de inferioridade;

 (xii)             considerar os discursos verbais, não-verbais (e os pré-verbais) do paciente, para avaliar os graus de resistência, aqueles intensamente manifestos ou os meramente sugeridos no tanscurso tanto dos relatos, como das trocas com o analista, entendendo-se como resistência desde uma consciente ou inconsciente relutância em ver ou mesmo em interessar-se por algo, até uma oposição explícita que prenuncie receio de se ver derrotado, ou de sofrer rebaixamento de status, a sugerir, nesta ponta de um espectro, graus de narcisismo, especialmente quando também se detecta caráter depressivo, onipotência, déficits de auto-estima, sentimento de inferioridade e uma conseqüente necessidade de ser amado, admirado (Kernberg, 1967)[43], com episódios de fantasias, de onisciência e de perfeição, nos termos de uma “(...) inflação defensiva do self.” (Moore e Fine, 1967)[44];

 (xiii)            ter presente que uma idéia sempre se associa com uma outra determinada idéia e assim valer-se da associação de idéias para poder decodificar um discurso paralelo que o ser humano sempre produz porque influenciado pelos derivados do nível inconsciente;

 (xiv)            ajustar seu terceiro ouvido (Rado, 1925)[45] para abranger os conflitos neuróticos por meio das ressonâncias perceptíveis dos “(...) embates, desejos ou forças que se originem de sistemas psíquicos separados. Por exemplo, a premência a gratificar uma pulsão sexual que se origine no id, pode entrar em conflito com uma proibição derivada do superego, ou a uma oposição entre constituintes dentro de uma mesma estrutura psíquica, por exemplo, entre dois ideais incompatíveis (no superego); entre pulsões (id), ou entre escolhas alternativas a serem tomadas (ego).” (Moore e Fine, 1967)[46]

 (xv)             se manter na postura definida como atenção uniformemente flutuante para captar o máximo de expressões dos derivados do inconsciente que passemdisfarçados, não obstante a seleção voluntária de pensamentos característica do discursar humano, por evidenciar uma ordem ditada pelo inconsciente em função de uma falha no processo defensivo, gerando o que se entende por associação livre, esta o método substitutivo da hipnose e designado por Freud[47]como marco do início da verdadeira história da psicanálise.

— A título de conclusão

 Com esta apostila pretendi apresentar apenas notas, já que me dirijo principalmente aos Colegas que querendo ampliar seus estudos e apresentar suas idéias, tomem este escrito apenas como uma espécie de índice e também de provocação para as discussões sobre dois temas muito importantes na clínica: a fala e a representação já que não há como dissociá-las:

 O caminhar das falas suscita representações.

As representações geram e mobilizam as falas.

 A propósito, q